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terça-feira, 8 de outubro de 2019

Segurança em um Mundo Complexo e Ambíguo

Essa série de artigos trata dos desafios da segurança da informação em um mundo marcado pela volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade (VUCA em inglês). Para quem não teve a oportunidade de acompanhar o artigo, VUCA é acrônimo criado pelo Army War College dos Estados Unidos em 1987 para definir a nova realidade do mundo e suas ameaças. No artigo de novembro comentei sobre os desafios da volatilidade e incerteza dos ataques, e nesse artigo irei tratar da complexidade e ambiguidade.

Apesar de ambos termos parecerem autoexplicativos, cabe uma rápida análise sobre o que eles significam dentro do conceito VUCA. Por complexidade entende-se a existência de múltiplas variáveis, ou “forças envolvidas”, a confusão de diferentes problemas, nem sempre em uma cadeia de causa e efeito, além da natural complexidade que envolve a organização ou empresa. Já a ambiguidade refere-se à falta de clareza da realidade, ou do que está ocorrendo, o potencial para erros de interpretação dos eventos e das relações de causa e efeito. Todos esses significados aplicam-se à segurança da informação, e permitem ainda algumas extensões.

Segurança é por si só complexa, tanto do lado dos atacantes como dos defensores. Apesar de falarmos sempre de eliminar a complexidade, o mais correto seria reduzi-la. Para dizer a verdade, a cada ano a complexidade aumenta. Há muitos anos o perímetro das redes era o link com a Internet, e todos os sistemas ficavam por trás dele, protegidos por um firewall. Com o passar do tempo o perímetro foi desaparecendo, em um processo que culminou na transferência de sistemas críticos para os ambientes de nuvem. Também há uma década atrás as equipes de segurança preocupavam-se apenas com computadores – pessoais e servidores, para proteger. Há mais ou menos cinco anos surgiu as políticas BYOD para tratar a multiplicação de dispositivos móveis, incluindo os pessoais, até chegar na quantidade atual de dispositivos “não-informáticos”, como sistemas de controle de temperatura e máquinas de venda, entre muitos outros, conectados à rede. Não há como reduzir toda essa complexidade, mas não precisamos nos perder em meio a ela.

O outro lado da complexidade vem dos atacantes, os hackers. Costumo dizer que eles têm todo o tempo do mundo, além de uma montanha de dinheiro, para desenvolver suas técnicas e programas de invasão. Os últimos ataques foram realizados com o emprego de múltiplas técnicas, algumas delas antigas e repaginadas. Não é exagero dizer que um ataque poderia ser realizado a partir de um drone pousado no jardim, a ser usado para conectar via wi-fi as câmeras de vigilância para, a partir delas, acessar e instalar malware nos computadores alvo, e que, no meio do ataque, algumas delas poderiam lançar um DDoS contra outros servidores a fim de despistar a equipe de resposta a incidentes.
O meio de reduzir complexidade é o entendimento, ou conhecimento, do ambiente de negócios e TI da empresa, e de toda a correlação que existe entre cada um dos seus componentes. Há relações de causa e efeito entre sistemas que podem ser mapeadas, e que serão vitais para a rápida resposta, além de permitir a eliminação de redundâncias e complexidades desnecessárias. A empresa precisará também de especialistas – próprios ou terceirizados – que a ajude a compreender a fundo cada pedaço de cada componente. Alguns desses especialistas estarão fora da área de redes ou TI, nos departamentos de negócio. Especialistas em ataques avançados serão também necessários para tratar as ameaças reais e potenciais, e ainda mais necessários na hora de responder ou mitigar um desses ataques, ajudando a interpretar eventos correlacionados por sistemas de gerência de ataques ou SIEMs. 

Já a ambiguidade é a prima da complexidade. Quanto menos entendimento, menos clareza quanto ao que está ocorrendo e às próximas ações a executar.  Ou seja, mais ambiguidade. O remédio é portanto, conhecimento, aliado à experimentação e testes. Como experimentação me refiro à análise dos impactos de uma nova tecnologia de acesso ou de um novo negócio na segurança. Em uma situação que a empresa decide migrar alguns de seus sistemas para um provedor de nuvem, a área de segurança deveria realizar todas as simulações dos efeitos da mudança na estratégia de defesa. A análise deverá ir além do óbvio ou aparente, buscando relações não imediatas. Eventualmente um teste de vulnerabilidade/risco pode ser executado para identificar cenários possíveis de ataque. O segundo teste comum é o conhecido teste de invasão, ou penetration test em inglês, mas não como a maioria das empresas o executa. Já há oito anos defendo que os testes de invasão realizados hoje são quase inócuos, e que a abordagem deveria ser diferente. 

Os testes comuns hoje são os chamados “testes cegos”, em que o consultor possui o mínimo de conhecimento prévio do seu cliente a fim de executar a invasão. O primeiro problema é que consultor terá um tempo fixo para realizar seu trabalho e nem sempre irá testar todas as possibilidades. Além disso o teste cego é uma foto no tempo, e nada garante que no dia seguinte ao fim das provas uma nova técnica não seja desenvolvida.

A abordagem que considero mais correta é confirmar se a empresa sabe o que fazer se for invadida. Esse método é parecido com uma simulação de incêndio em um edifício. Não se põe fogo no prédio, mas se testa alarmes, rotas de fuga, tempo de evacuação do prédio, pontos de encontro e organização da brigada de incêndio. Em TI significaria uma invasão controlada, mesmo que para isso fosse plantada uma vulnerabilidade no servidor, com o objetivo de testar os mecanismos que a empresa instalou para detecção e prevenção de intrusos. O objetivo final é testar o plano de resposta. Essas simulações servirão como treinamento para todos os envolvidos, ajudando a entender o ambiente e dessa forma reduzir ambiguidades.

Seja qual for o ataque, o tempo e precisão da resposta serão vitais na redução e contenção dos danos, e esses são proporcionais ao nível de preparação e treinamento de todos os envolvidos. Deixar isso para o calor do momento é ajudar a quem menos precisa: o hacker. 

Segurança em um Mundo Volátil e Incerto


No último artigo comentei sobre os desafios da segurança da informação em um mundo marcado pela volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade (VUCA em inglês). Para quem não teve a oportunidade de acompanhar o artigo, VUCA é acrônimo criado pelo Army War College dos Estados Unidos em 1987 para definir a nova realidade do mundo e suas ameaças. Esse mês irei me aprofundar em como planejar a segurança em um cenário de volatilidade e incerteza.

Volatilidade se define como a dinâmica dos eventos, inesperados tanto em sua natureza como em seu alcance. O oposto de volatilidade é a estabilidade, ou a quantidade de eventos e nível de criticidade considerado como padrão, e que a empresa enfrenta na maior parte do ano. Em um ambiente estável espera-se o que irá ocorrer, que é conhecido e, portanto, a resposta está documentada e treinada. No entanto, algo desconhecido e inesperado pode ocorrer a qualquer momento. Dizer que segurança é volátil é reconhecer que não há garantia de estabilidade nos elementos que estão fora do alcance de controle da empresa: hackers e usuários mal-intencionados.
Incerteza é o grau de imprevisibilidade dos eventos. Como os grandes ataques mostraram, as técnicas, vetores e extensão da invasão são somente identificados após o inicio e, em alguns casos, após seu êxito. Em alguns casos as vítimas apenas perceberam que havia uma invasão em curso depois que os sistemas saíram do ar, os dados foram roubados ou o computador ficou inacessível. Os resultados de não saber o que está ocorrendo são a surpresa, não saber como reagir e a sensação de impotência.  Volatilidade e Incerteza estão ligados. Um evento pode ocorrer a qualquer momento sem aviso prévio, e não temos como conhecer de antemão seus métodos e consequências.
A estratégia sai um pouco do senso comum de adquirir produtos ou serviços de segurança unicamente, contando que eles irão eliminar o risco ou reduzi-lo a níveis aceitáveis. No entanto, como já comentei, mesmo um residual de risco de 1% pode tirar uma empresa do ar e afetá-la durante dias.
O primeiro passo é estar preparado. Se não sabemos quando e como um ataque irá ocorrer, e nem sua natureza e dimensão, mas concordamos que um ataque bem-sucedido em algum momento poderá e irá ocorrer, o primeiro passo é estar sempre preparado. O contrário infelizmente é impossível. Não há como eliminar todo o risco.
Estar preparado implica na empresa (não apenas TI) possuir um plano de resposta a incidentes (PRI) que defina as ações das diferentes áreas em uma hipotética invasão e dê ordem e agilidade à reação. O que farão TI, segurança e redes? Como as operações essenciais serão mantidas? O plano deve incluir as áreas de marketing e comunicações para monitorar eventuais repercussões com clientes e da área jurídica para eventuais processos decorrentes da afetação de serviços ou vazamento de dados de clientes. Um bom PRI requer equipes especializadas e não custa barato, seja montado internamente ou contratado de provedores especializados, mas é necessário. Deve também sofre atualizações continuas para acompanhar mudanças nos negócios e ser testado periodicamente. Qualquer semelhança com planos de continuidade de negócios não é coincidência.
Com o PRI a empresa não será pega de surpresa, mas não podemos esquecer que estar preparado não significa saber o que está acontecendo. Ataques são incertos, não dá para adivinhar como eles se desenrolam. Para isso há duas características essenciais que todas as empresas deveriam buscar em seu planejamento de segurança: visibilidade e contexto.
Visibilidade significa simplesmente ver tudo o que está trafegando em rede. Como já comentei em artigos anteriores, é comum a análise do tráfego de rede em pontos específicos, como os perímetros externos e internos, sendo esta análise executada por um firewall ou IPS. A proposta é inspecionar todo o tráfego de rede em busca de anomalias ou tráfego suspeito, aquele que se comporta similarmente a ataques. Exemplo de tráfego suspeito é aquela direcionado à países com os quais a empresa não possui conexões comerciais, mas há muitos outros. Como em todas as tecnologias, há soluções hoje disponíveis para todos os tamanhos de empresa, como produtos ou serviços, alguns já fornecidos desde a nuvem. Devem também estar visível o tráfego de dispositivos de infraestrutura como câmeras e controles de ar-condicionado, dentre outros.
A análise do tráfego requer o que chamo de contexto, a correlação de vários dados a respeito do tráfego: (1) quem está acessando (o usuário mais que o endereço IP), (2) de qual computador (o normalmente usado pelo usuário ou não); (3) de qual sistema operacional (é o que ele possui em seu computador ou não); (4) de qual localidade (dentro ou fora do escritório); (5) quando (dentro do horário de trabalho ou comumente usado) e (6) o que está fazendo na rede (está acessando algum servidor ou serviço fora do seu padrão).  Quanto mais dados correlacionados, melhor e mais confiável a análise.
Notem que ambos, visibilidade e contexto, podem ser usados também na prevenção e detecção de ataques, o que nos leva ao quarto elemento da estratégia: antecipação. Não podemos adivinhar o que irá ocorrer, mas podemos aumentar nosso grau de alerta em resultado de ocorrências internas – detectadas pelos sistemas de visibilidade – e externas. Para este último devemos buscar inteligência em segurança. Inteligência é conhecimento e informação. Saber os ataques que estão ocorrendo no mundo e relacioná-los com a infraestrutura da empresa. Se algo está ocorrendo, mesmo que do outro lado do mundo, certamente chegará até você. Antecipe-se. Esteja preparado.
Também não estamos sozinhos no mundo. Os hackers compartilham informações o tempo todo, porque não nós? Convide pares de empresas de seu segmento e crie fóruns para intercambio permanente. Esqueça concorrência, pois nesse assunto os concorrentes são os hackers. Finalmente, nunca esteja em uma área de conforto. O invasor só precisa acertar uma vez. O defensor precisa acertar em todas.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Segurança em um Mundo VUCA


Se há uma certeza hoje é que não temos a menor ideia do que irá acontecer amanhã, tais quais os versos do compositor Didi - “como será amanhã, responda quem puder” - imortalizados pela voz da cantora Simone. Certa vez li de que a certeza é o que nos dá a tranquilidade de agir, mas, como dizem, o diabo mora ao lado, ou nos detalhes. Não estamos nem um pouco preparados para o desconhecido. Queremos controlar o incontrolável, e, pior ainda, gostamos de nos enganar dizendo que está tudo sob controle. Na verdade, sim está, mas do imponderável, que infelizmente não trabalha para nós.
Buscar o controle faz parte do DNA do profissional de segurança, e é o que aprendemos desde sempre: medir o risco, aplicar controles e reduzi-lo até níveis considerados aceitáveis, já que 100% nunca será alcançado. Também sempre pensei assim, mas há algo errado. A segurança parece frágil, ou no mínimo menos eficiente do que gostaríamos que fosse. Talvez não precise ser assim. Devemos, claro, manter riscos conhecidos sob controle e em níveis que julgamos adequados, mas sempre haverá o 1% imprevisível, e é dessa pequena porção que estou falando. Esses 1% de riscos não cobertos possuem a capacidade de cancelar todo o esforço dos outros 99%. Se um único ataque de ransomware tira do ar uma empresa por dias, para que serviu todo o esforço? A resposta é rápida: “em 99% do tempo não somos invadidos e a empresa opera normalmente”. Eu concordo, mas nenhuma empresa pode ficar fora do ar 1% do tempo.
Esse é o meu desafio pessoal atualmente, e convido todos a ele: como montar a estratégia da segurança da informação sem saber e sem tentar adivinhar o que acontecerá, em um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo?
Volátil, incerto, complexo e ambíguo é como o US Army War College definiu o mundo em 1987. Eles estavam obviamente pensando na guerra, mas o acrônimo por eles cunhados, VUCA (ou VICA em português), passou a ser utilizado também nas áreas de negócios e planejamento estratégico. E cabe perfeitamente também em segurança da informação, sobretudo frente às ameaças resultantes do mundo conectado, ou digitalizado.
Volatilidade se define como a dinâmica dos eventos, inesperados tanto em sua natureza como em seu alcance. O oposto de volatilidade é a estabilidade, ou a quantidade de eventos e nível de criticidade considerado como padrão, e que a empresa enfrenta na maior parte do ano. Em um ambiente estável espera-se o que irá ocorrer, que é conhecido e, portanto, a resposta está documentada e treinada. No entanto, algo desconhecido e inesperado pode ocorrer a qualquer momento. Dizer que segurança é volátil é reconhecer que não há garantia de estabilidade nos elementos que estão fora do alcance de controle da empresa: hackers e usuários mal-intencionados.
Incerteza (o U do acrônimo) é o grau de imprevisibilidade dos eventos. Como os grandes ataques mostraram, as técnicas, vetores e extensão da invasão são somente identificados após o inicio e, em alguns casos, após seu êxito. Em alguns casos as vítimas apenas perceberam que havia uma invasão em curso depois que os sistemas saíram do ar, os dados foram roubados ou o computador ficou inacessível. Os resultados de não saber o que está ocorrendo são a surpresa, não saber como reagir e e a sensação de impotência.
Volatilidade e Incerteza estão ligados. Um evento pode ocorrer a qualquer momento sem aviso prévio, e não temos como conhecer de antemão seus métodos e consequências. O grande desafio para encarar a volatilidade e a incerteza somos nós mesmos. Não sabemos lidar com o risco, não temos tolerância a ele, e por isso queremos eliminá-lo, o que não condiz com a realidade.
Já Complexidade é inerente a qualquer evento de ataque cibernético, assim como também a como está configurada a segurança da empresa. Muitas vezes vemos os hackers usarem a complexidade a seu favor e as empresas a usá-la contra elas mesmas. De qualquer forma, qualquer ataque será complexo, e os mais sofisticados usarão múltiplas técnicas de invasão, seja para aumentar a eficácia ou para evitar a detecção pelos sistemas de defesa.
Ambiguidade é uma característica nem sempre levada em conta. Muitas vezes nossa leitura dos eventos pode estar equivocada, ou mesmo um ataque pode ser apenas um chamariz para desviar atenção de outro muito pior. Um ataque de ransomware, por exemplo, pode ser usado para mascarar o roubo de informações.
O conceito VUCA aplica-se naturalmente ao mundo da estratégia empresarial, e a maior parte da literatura fala disso. O mundo dos negócios é cada vez mais disruptivo, e modelos de negócio são construídos ou mudam cada vez mais rápido. Em muitos negócios, como Uber, Amazon e Netflix, a TI deixou de ser um habilitador do negócio para se tornar o próprio negócio. Logo um ataque bem-sucedido não irá apenas atrapalhar, ele tirar do ar o próprio negócio da empresa, levar a zero o faturamento, causar milhões de dólares de prejuízo. Esse ambiente de negócios traz um novo desafio à gestão de segurança. Não apenas precisamos estar preparados para as a imprevisibilidade dos ataques, como também nos adaptar e acompanhar as mudanças nos negócios.
Todos os casos dos grandes ataques apresentaram bem as quatro características, com impacto nos negócios ou na credibilidade da empresa e executivos, e é necessária uma mudança no modo como encaramos as coisas. Pensar segurança dessa maneira envolve mudar conceitos, e até mesmo ir contra algumas medidas consideradas há anos como “boas-práticas”. Envolve reconhecer que muitas das estratégias e táticas criadas há mais de uma década e ainda utilizadas não funcionam mais. Envolve interpretar de maneira diferente relatórios de institutos de pesquisa que ainda seguem encarando a segurança em silos, como fazem há vinte anos. Envolve mudança.
Nos próximo artigos irei tentar aprofundar cada uma das quatro características VUCA, e buscar algumas medidas que podemos implementar, não para controlar, pois, de novo, isso é impossível, mas para tornar nossa segurança menos frágil e mais eficaz, em qualquer situação.