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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Engenharia Social


** artigo publicado na Revista RTI edição de Outubro/2012 **
Um dos temas que mais chamaram a atenção no últimos meses foi o ataque sofrido pelo jornalista Matt Honan, da revista Wired. Para aqueles que não acompanharam o caso, ele teve roubadas suas credenciais de acesso ao Google, Twitter, Amazon e Apple; além de seu iPhone, iPad e Macbook completamente apagados. Como ele mesmo declarou, sua vida digital foi arruinada em menos de um dia. A história completa está contada no endereço próprio do jornalista, http://www.wired.com/gadgetlab/2012/08/apple-amazon-mat-honan-hacking. Lá também está a descrição de como ele conseguiu recuperar os seus dados, em http://www.wired.com/gadgetlab/2012/08/mat-honan-data-recovery.
O que mais vale nesse episódio não é o seu resultado, que será ainda contado por anos em palestras pelo mundo, mas suas entrelinhas. Todo o procedimento seguido, linha de raciocínio e vulnerabilidades exploradas estão não só descritas como detalhadas. Temos ainda a revelação de que o ataque não foi pessoal. Phobia, o invasor, disse à própria vítima que não tinha nada contra ele e que queria apenas invadir sua conta do Twitter. Algo como um exercício. É a confirmação de que ninguém pode nem deve sentir-se totalmente seguro na Internet. Há ainda o fato de que todo o processo de invasão se deu com o uso exclusivo da Engenharia Social, a técnica de ganhar acesso a um edifício ou sistema, ou de obter um resultado qualquer através da interação social, sem a quebra da segurança física ou digital do alvo. O método é normalmente associado à enganação mas na verdade é mais complexo que isso, pois requer que alguma vulnerabilidade não tecnológica seja explorada, como processos mal escritos e falhas de treinamento de pessoal.
E foram essas as vulnerabilidades exploradas pelo hacker Phobia para atingir seu objetivo. Ele não precisou quebrar a segurança de nenhum sistema dos provedores, tampouco precisou decodificar senhas ou invadir os equipamentos da vítima para apagar os dados.  Ele apenas se aproveitou de procedimentos mal definidos ao se fazer passar pelo jornalista ao telefone e obter o acesso aos serviços. O principal erro das empresas foi o de solicitar dados de identificação pessoal que podem ser facilmente obtidos na Internet.
A primeira vista esses erros podem parecer grosseiros, mas não encaro assim. Vejamos o caso da Amazon. Ela permitiu sem muita dificuldade que o impostor adicionasse um novo cartão de crédito à conta de Honan. Para isso eles pediram nome, email e endereço; todas informações fáceis de se obter. Mas o autor desse procedimento iria com certeza perguntar: mas para que alguém iria incluir um cartão de crédito na conta de outra pessoa? Não deixa de fazer sentido. Se o cliente quer incluir um cartão para que criar dificuldades? A resposta não está nesse procedimento mas em outro, para recuperar a senha. Para isso eles pediam nome, endereço e o número do cartão de crédito registrado, algo certamente difícil de se obter a não ser que, sim, o próprio invasor o tenha incluído na conta. A única maneira de se evitar uma situação assim é pensar como o hacker, algo que muitas empresas não estão preparadas para fazer.
Há ainda outra entrelinha. Senhas são a nossa primeira linha de defesa, para muitos serviços online a única. Quanto maiores e mais variadas, mais “fortes”, seguras, elas são. Esta certamente não era uma preocupação para o jornalista, já que ele contou utilizar uma ferramenta de administração de senhas, que gera códigos com mais de dez dígitos e grande variação de caracteres. Ele se julgava seguro dessa forma, e ninguém pode dizer que estava enganado. Por muito menos  a maior parte dos usuários se sente seguro apenas porque troca suas senhas a cada 90 dias. Eu sou um crítico dessa “boa prática”. Não discordo dela mas sim da maneira como é implementada. Em muitos sites essa é a única medida de segurança para seus usuários, que continuam a usar senhas compostas de números ou combinações simples, apesar de trocá-las periodicamente. O pior risco é a falsa sensação de segurança.
Qual então a solução? Para os usuários infelizmente não há nada o que fazer quando seus provedores não fornecem recursos melhores. Mas eles existem em alguns casos, e devemos aprender a utilizá-los. Um bom exemplo é o Google e o Facebook, que possuem como opção a autenticação em duas fases quando o acesso é feito de um computador nunca antes usado pelo usuário.  No caso deles o telefone se torna o segundo fator de autenticação, seja ao receber um SMS com uma segunda senha, ou via aplicativo nele instalado. É o mesmo método usado por muitos bancos no Brasil para avisar de uma operação de débito ou crédito. Já o UOL envia mensagem de SMS quando a senha é alterada, medida também implementada por alguns bancos brasileiros para avisar seus clientes de operações diversas. Mas para isso é necessário que o telefone celular esteja cadastrado, o que muita gente não faz.
Para as empresas é necessário repensar. Por que não implementar um segundo fator de autenticação para algumas tarefas, como por exemplo, a troca da senha? Não menos importante são as perguntas de identificação positiva no atendimento telefônico. Dados tidos como confidenciais, como CPF ou identidade, podem ser comprados facilmente, ou obtidos no lixo residencial ou empresarial. Um bom exemplo de identificação positiva, pouco usada e muito mais eficiente, é permitir que o próprio cliente cadastre suas perguntas e respostas, geralmente de cunho pessoal e que um impostor dificilmente irá obter. É possível também fazer um trabalho melhor com as senhas. O primeiro passo é permitir letras maiúsculas e minúsculas, além de caracteres especiais.  Só números e letras minúsculas é muito pouco. Segundo, não limitar o tamanho da senha em apenas oito caracteres. Este deve ser o mínimo mas certamente não o máximo. É necessário que as empresas deixem de seguir somente o que aparenta ser a boa prática e pesquisem casos e exemplos diferentes em seu e em outros mercados.  

terça-feira, 21 de junho de 2011

Ataque à RSA: Advanced Persistent Threat?

O instinto de preservação é de nossa natureza. Tentamos sempre nos defender de ameaças, seja contra nós mesmos ou contra a que nos pertence, como nosso trabalho. Por isso desde criança nos justificamos tentando minimizar nossa responsabilidade em nossas falhas. Ao invés de reconhecer que não estudamos nosso primeiro ímpeto é dizer que a prova estava muito difícil. "Não foi minha falha, fiz tudo direito, não pude evitar o que aconteceu". 

A RSA, que teve seus sistemas invadidos, declarou que foi vítima de um Advanced Persistent Threat (APT). Acho esse negócio de APT uma bobagem, mas respeito a opinião de especialistas com uma visão diferente. Mas, francamente, há muita gente usando o termo da maneira que eu mais temia: como uma desculpa, e esfarrapada. 

Vejamos, como foi o ataque, ilustrado pela própria RSA. O hacker enviou emails de phishing a alguns funcionários contendo um exploit dia-zero dentro de um arquivo Excel que explora uma vulnerabilidade no Adobe Flash (CVE-02011-0609).

RSAAPTGraphic.png

Disseram que foi um APT porque os invasores conheciam a empresa, sua rede, funcionários e suas funções. Mas como alguém irá invadir uma empresa sem investigá-la? Desde quando um ataque direcionado é um APT? E desde quando enviar um phishing com um zero-day exploit é uma técnica avançadíssima? Por que não reconhecer o óbvio? Que o sistema anti-phishig, firewall pessoal e o treinamento dos usuários falharam? Ou que o phishing foi bem construído e burlou a segurança do email mas que um funcionário desatento não percebeu que um email com o título de "2011 Recruitment Plan" era uma armadilha? E por que o software de segurança da estação de trabalho do funcionário desatento não detectou o exploit? Por que não reconhecer que a empresa foi invadida por um método de ataque que existe há quase uma década? Pois é, a pior maneira de lidar com um problema é não reconhecê-lo.