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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

O que um ataque pode nos revelar?

*** artigo publicado na revista RTI, agosto/2013 ***

O que um orçamento de 100 milhões de dólares em segurança da informação significa para você, caro leitor? Pois esse foi o valor gasto pela FIS - Fidelity Information Services – após a grande invasão e fraude que ocorreu na empresa em 2011. Para aqueles que não se recordam do caso, a FIS é uma empresa americana e prestadora de serviços a vários bancos e instituições financeiras, com atuação global. Em Maio de 2011 a empresa reconheceu em seu relatório trimestral que sofreu uma invasão que resultou em perdas de 13 milhões de dólares. Embora sem especificar detalhes, soube-se que hackers invadiram os sistemas de controle dos cartões de débito pré-pago da companhia e alteraram os limites de 22 cartões pré-pagos de débito de um dos seus clientes. Depois esses cartões foram clonados e espalhados pelos mundo, e saques foram realizados simultaneamente na tarde de um domingo em vários países da Europa. Enquanto os saques eram realizados, os hackers continuavam dentro dos sistemas de controle de saldo dos cartões, aumentando-os quando estes chegavam a zero.

Após a invasão milionária a empresa sofreu sucessivas auditorias do Federal Deposit Insurance Corp. (FDIC), órgão de seguros do mercado financeiro dos Estados Unidos. Dados do último relatório dessas auditorias foram relevados no blog KrebsOnSecurity, e ilustram com mais detalhes os problemas e desafios enfrentados por companhias desse tamanho. O relatório não é bom para a empresa americana, principalmente por revelar que a invasão foi mais extensa do que publicado inicialmente, e também porque dados de vários outros clientes, aparentemente não afetados no ataque, foram extraidos e poderiam ser utilizados em novas ações. Para começar os auditores identificaram atrasos na integração de sistemas e redes de empresas adquiridas pela FIS nos últimos anos, no entanto reconheceram a complexidade em um projeto que consiste de “aproximadamente 30 mil servidores e sistemas operacionais, outros 30 mil dispositivos de rede, mais de 40 mil estações de trabalho, 50 mil circuitos de rede e 28 mainframes rodando 80 partições lógicas”. É claro que não é fácil assegurar uma rede desse tamanho, principalmente quando vem de empresas adquiridas e desconhecidas. Foram listados também “18.747 vulnerabilidades de rede e mais de 291 vulnerabilidades de aplicação”. Essas varreduras também revelaram mais de 10 mil ocorrências de senhas default no ambiente, assim como senhas em branco.  Outro problema é que a habilidade dos investigadores em identificar a origem da invasão foi seriamente afetada porque o pessoal de resposta a emergências apagaram e reinstalaram vários sistemas comprometidos na tentativa de restabelecer as operações normais, antes que estes pudessem ser analisados.

Obviamente é fácil criticar quando temos a visão privilegiada do observador, e meu objetivo é listar quatro aprendizados para melhorar a segurança da informação em nossas empresas:

Aparências enganam
Em um ataque hackers podem colher informações para ataques futuros, portanto, quando vítima de uma quebra, não se limite a analisar os alvos aparentes de um ataque. Não se contente em dizer que “apenas sistemas de pouca relevância foram afetados” e esquecer a questão. Sementes para outras invasões podem ter sido plantadas. Dessa forma a investigação e revisão de segurança devem se estender por toda a rede, por mais custoso que isso possa ser, inclusive para sua carreira na empresa. É da natureza humana minimizar ocorrências para nossos chefes, mas será muito pior se o que inicialmente dissemos ser  “algo pequeno” se revela depois algo bem mais destrutivo.

Prepara-se para o pior
É essencial que empresas de todos os portes e segmentos possuam um plano de resposta a incidentes, no intuito de preservar não só os ativos da empresa mas também as evidencias dos ataques, permitindo que investigadores possam identificar autores e métodos, e impedir quebras futuras. Esse é o ponto falho mais comum nos planos. Como muitas empresas não possuem sistemas redundantes a única alternativa face a um ataque é restabelecer rapidamente os servidores para que as operações voltem ao normal. Isso ocorre mesmo em grandes empresas e preservar ou não servidores atacados é uma decisão que deve ser tomada pelos executivos. Mas há alternativas como gerar imagens dos sistemas afetados antes de estes serem recuperados. Pode atrasar o restabelecimento da rede mas salvar a investigação e impedir novas ocorrências.

Priorize
Priorizar vulnerabilidades é essencial, e para isso é também essencial que se conheça os níveis de importancia de cada servidor e sistema para os negócios da empresa. Mas primeiro devemos reconhecer que detecção de vulnerabilidades não é gerenciamento de vulnerabilidades. Não basta executar varreduras e depois enxugar gelo tentando corrigi-las. O primeiro passo é trabalhar em um inventário realista de equipamentos e sistemas, onde o valor de cada um é corretamente avaliado. As primeiras vulnerabilidades a corrigir são as de alto risco que afetam sistemas altamente críticos. Deve-se também coletar inteligência de ataques e acrescentar a essa equação a probabilidade da vulnerabilidade ser invadida, medido pela existência de exploits ativos. Lembremos também que a probabilidade de invasão é reduzida ou eliminada se há um sistema bem configurado de prevenção de intrusos ou se as portas TCP/IP estão bloqueadas nos firewalls, caso isso seja possível.

Segurança também é cultura

Há algo errado quando funcionários de TI, mesmo trabalhando em uma companhia que preza a segurança da informação, continuam a não alterar senhas default de sistemas. Esse fato revela a falta de uma cultura de segurança e um imenso risco para as operações, não importa quanto se gaste em controles e sistemas de segurança.  Não me canso em repetir que segurança é como qualidade, ou se faz diariamente ou não temos nada. E funcionários que não julgam importante a segurança e a comprometem são pessoas que não compartilham da mesma cultura da empresa, e essa deve avaliar se vale a pena mantê-los.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Hackers e a ONS

Impossível não comentar a discussão em torno do apagão, dos rumores da inteligência americana sobre blecautes antigos terem sido provocados por hackers, sobre o programa da CBS - 60 Minutes - insinuando a mesma coisa, e sobre a noticia publicada hoje na Folha de São Paulo sobre vulnerabilidades no sistema da ONS.

Trabalho há muitos anos em segurança para duvidar de tudo. Duvido quando um executivo declara que seu site é seguro assim como duvido quando alguém diz que pode invadir determinado sistema. As coisas não são assim tão simples, tão binárias! É fato que o site da ONS estava com uma baita vulnerabilidade que dava acesso a um ou mais servidores e aplicações. Mas dizer que a partir da daí alguém poderia invadir o sistema de operação é simples chute. Há muitos "se": "se as redes estiverem conectadas", "se o sistema invadido armazenar dados que permitam ...", etc etc. Somente uma avaliação criteriosa pode dizer até onde um invasor poderia chegar e o que poderia fazer. Fora isso é chute.

Mas a imagem romântica do hacker continua. Em nosso imaginário estão filmes como "Duro de Matar 4.0" ou o antigo "A Rede" (alguém se lembra?). Hackers são aqueles que conseguem tudo, feiticeiros do século 21. Pessoas que se intulam "hackers" exercem uma atração sobre as outras. Dizer que trabalha com segurança também. Há um certo romantismo em dizer que um evento como o apagão da semana passada foi obra de hackers. Imagine como será frustrante descobrir que foi incompetência de alguém ou erro operacional de algum sistema que deveria funcionar e não funcionou. Zero de glamour.

Os problemas no site da ONS também não tem nenhum glamour. Nada. Zero. Tratam-se de vulnerabilidades banais que permitem ataques manjados contra servidores de banco de dados e que seriam identificados com um teste simples, que obviamente não foi feito. Incrivel que um site tão importante tenha sido colocado no ar sem a realização de um teste, mas essa realidade é mais comum do que deveria ser. O diretor do DSIC - Raphael Mandarino - declarou à Folha de São Paulo que um servidor do governo foi invadido porque a senha do sistema era a default! Essa é a frustrante realidade do mundo da segurança da informação. Em boa parte do tempo lidamos com essas falhas banais, não com gênios da tecnologia.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Ajudando hackers a invadir sua empresa

Há algum tempo, um post no blog da Errata Security chamou minha atenção. Com o sugestivo título de “Cyberspyes #2” (http://erratasec.blogspot.com/2009/04/cyberspies-2.html), o autor comentava sobre uma notícia falsa, uma barriga no jargão do jornalismo, publicada nos dias 8 e 9 de abril, sobre supostas invasões à rede de distribuição de energia elétrica dos Estados Unidos por espiões russos e chineses. A notícia saiu em midias importantes dos Estados Unidos: Wall Street Jornal, BBC News, Reuters e CNN. Como a característica principal da Internet é a velocidade da informação, comprometendo obviamente sua qualidade, a noticia foi replicada em diversos blogs e sites mundo afora. A revelação da barriga saiu da própria comunidade de segurança, incluso de profissionais independentes que são contratados para testar os sistemas de infraestrutura norte-americanos.

Notícias sobre invasões digitais e cyberwar saem a toda hora, há muitos anos. Algumas são verídicas, outras simplesmente alarmistas. Mas nessa história da suposta espionagem à rede elétrica dos Estados Unidos, o artigo mais interessante foi publicado ainda em abril no site do Economist (http://www.economist.com/opinion/displaystory.cfm?story_id=13527677). Nele o jornal discute a possível origem da notícia falsa: uma disputa interna entre diferentes órgãos de segurança interna dos Estados Unidos por espaço e fundos dentro do novo orçamento que o governo Obama irá definir para segurança digital. Caso o Economist esteja correto, essa versão é mais assutadora que a notícia de espionagem e vulnerabilidade da infraestrutura do país mais poderoso do mundo. Os próprios responsáveis pela segurança nacional estariam plantando notícias, e imagina-se o que mais, para desfrutar de mais poder e dinheiro.

Alguns dias antes desse fato, a CNN publicou um artigo sobre as vulnerabilidades do “Smart Grid”, a rede de distribuição elétrica inteligente, iniciativa criada para reduzir custos e aumentar e eficiência do sistema. O objetivo do Smart Grid, uma iniciativa em escala global, porém prioridade do governo dos Estados Unidos, é modernização das redes de transmissão e distribuição de energia através do emprego de uma série de equipamentos e software. O título do artigo “Smart Grid pode ser vulnerável a hackers” soa um tanto óbvio para especialistas de segurança, e possui um tom alarmista desnecessário. A modernização via o Smart Grid irá adicionar novas vulnerabilidades ao sistema que controla energia, seja qual for o país que o implemente, não porque seja ruim, mas porque qualquer sistema de informática ou transmissão de dados possui vulnerabilidades, tal qual redes de telefonia VoIP, internet banking e votação eletrônica. O fato desses sistemas possuirem vulnerabilidades não significa que não devam ser usados, e sim que devem ser implementados controles para mitigar o risco dessas delas serem exploradas. Alardear que a implantação deve ser retardada até que suas vulnerabilidades sejam sanadas não faz nenhum sentido. Se fôssemos seguir a regra não teriamos hoje em dia nem a web mais básica.

Então sempre é bom recordarnos de alguns conceitos elementares, que nunca ficarão obsoletos:
1. Qualquer sistema de informática possui vulnerabilidades
2. Qualque sistema possa ser invadido por alguém que possua conhecimento, acesso e motivação para tal. Não há sistema 100% seguro.
3. Risco é o resultado da equação vulnerabilidades x ameaças x valor do ativo. Portanto o aumento do nível de vulnerabilidades não significa que os riscos serão aumentados irremediavelmente. Novas vulnerabilidades são compensadas por controles que reduzem a exposição a ameaças.
4. Se o dito ativo ou sistema não possui valor, e não pode ser usado para invadir outros sistemas, esqueça. Não desperdice dinheiro com ele.
5. O guia dos investimentos deve ser o valor dos ativos. Identificando-se os ativos mais importantes deve-se atuar sobre vulnerabilidades e ameaças.

Esses fatos são uma boa oportunidade para procurar em nossas empresas ocorrências semelhantes. Boas idéias não devem ser descartadas somente porque possuem riscos. Estes devem ser tratados. É função da área de segurança procurar o equilibrio e indicar o caminho com menor risco para implementar a idéia. Normalmente boas idéias estão associadas a bons negócios e uma má implementação, não segura, pode simplesmente destrui-la. Assim a área de segurança se torna uma peça fundamental para os negócios de qualquer empresa: viabilizar seus negócios através de meios digitais. Qualquer coisa diferente disso é paranóia inútil. Por outro lado, ignorar a importância das medidas de mitigação de riscos, portanto da área de segurança, nos novos negócios e implementações, achando que as tecnologias tem a segurança nelas embutidas é achar que o mundo é cor de rosa. Pura inocência.

Uma das coisas que mais atrapalham a implementação bem sucedida de controles de segurança são as disputas entre departamentos, muito similar às disputas entre os órgãos do governo americano. Elas, além de nada ajudar, ainda pioram a situação porque ajudam a manter abertas vulnerabilidades que podem ser exploradas, as janelas de oportunidade dos hackers. O nível de segurança e vulnerabilidade deve ser divulgado como é, nem a mais, nem a menos. Esconder vulnerabilidades ajudam invasores, sejam programas ou pessoas, já que as falhas omitidas não são corrigidas. Disputas internas quase sempre levam a empresa a gastar onde não deve, com prioridades erradas.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Profissionalização do Crime Digital e a Floresta Amazônica

Vale a pena ler o artigo do Greenpeace “Hackers help destroy the Amazon rainforest” (Hackers ajudam a destruir a Floresta Amazônica) no endereço http://www.greenpeace.org.uk/blog/forests/hackers-help-destroy-amazon-rainforest-20081212. De acordo com o Greenpeace, o Ministério Público do Pará está investigando a contratação de hackers para invadir e fraudar os sistemas de controle do Governo, afim de permitir a exploração ilegal de madeira na Amazônia.

Esse artigo nos remete ao tema da profissionalização do crime cibernético, ou como os grupos de hackers estão vendendo cada vez mais seus serviços. Um ótimo comentário está no blog Frequency X: http://blogs.iss.net/archive/RainforestHackers.html.