Os artigos refletem a opinião pessoal do autor, e não de seus empregadores.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Slow and Low: a nova modalidade de ataques cibernéticos

*** artigo publicado na revista CIO | Publicada em 27 de abril de 2015 às 08h06 ***

http://cio.com.br/tecnologia/2015/04/27/slow-and-low-a-nova-modalidade-de-ataques-ciberneticos/

O cenário atual de ameaças é alimentado por invasores não mais motivados apenas pela notoriedade, mas sim pelo ganho econômico ou político. Com incentivos financeiros significativos para ataques bem-sucedidos, o ataque silencioso é agora a cartada do jogo. Os invasores estão mais proficientes, aproveitando-se discretamente das brechas na segurança para ocultar e dissimular a atividade maliciosa, e nós estamos conhecendo novas abordagens jamais vistas.

Os ataques “slow and low” (“Lento e baixo”) usam o tráfego lento, que parece legítimo em termos de regras e taxas de protocolo, para atingir uma falha da segurança. Por não violar qualquer política padrão de rede ou de segurança, eles passam despercebidos, voando abaixo do radar das estratégias tradicionais de mitigação.

Aqui estão cinco técnicas do tipo "slow and low" que os criminosos cibernéticos utilizam para ganhar acesso às redes e cumprir a sua missão, e que os profissionais de segurança precisam entender para defender, de forma mais eficaz, suas organizações.

1. Exploit kits: No mundo dos negócios, as empresas se esforçam para serem reconhecidas como líderes da indústria. Mas quando se trata de exploits (pacotes de dados que se aproveitam de vulnerabilidades), o primeiro lugar não é tão cobiçado assim. Produtores de exploits kits de alto perfil, como o “Blackhole”, têm sido alvo das autoridades ou têm sido fechados. Como resultado, os invasores estão percebendo que ser o maior e o mais ousado nem sempre é melhor - seja qual for o tamanho das infraestruturas maliciosas C&C (servidores usados de comando e controle) ou a forma de invasão das redes. Em vez disso, os exploits mais bem sucedidos são o quarto ou quinto mais comum - um modelo de negócio sustentável, já que não atrai muita atenção.

2. Snowshoe Spam: Assim chamado por ser muito parecido com uma bota de neve (“Snowshoe”) que deixa uma pegada grande, mas fraca, mais difícil de ser vista. Com essa técnica, o invasor espalha um monte de mensagens em uma grande área para evitar a detecção por métodos tradicionais de defesa. O spam Snowshoe envia e-mails em massa não solicitados usando um grande número de endereços IP e num volume baixo de mensagem, numa tentativa de contornar as tecnologias de reputação AntiSpam baseadas em IP. Eles rapidamente alteram o corpo do texto, os links, os endereços de IP usados para o envio e nunca repetem a mesma combinação.

3. Spear phishing [arpão de pesca] mais sofisticado: Os adversários continuam a aperfeiçoar suas mensagens, muitas vezes usando táticas de engenharia social, e até os usuários mais experientes têm dificuldade em detectar tais mensagens falsas. A última rodada de mensagens de phishing parece vir de fornecedores conhecidos ou prestadores de serviços de quem os usuários geralmente recebem mensagens - por exemplo: serviços de entrega, sites de compras online e provedores de música e entretenimento. Esses e-mails podem incluir um nome de confiança, um logotipo ou um título que parecem familiar aos destinatários, como um aviso sobre uma compra recente ou um número de rastreamento da entrega. Esta construção bem planejada e cuidadosa dá aos usuários uma falsa sensação de segurança, seduzindo-os a clicar em links maliciosos contidos no e-mail.

4. Exploits compartilhados entre dois arquivos diferentes: Malwares Flash agora podem interagir com JavaScript ao compartilhar um exploit entre dois arquivos e formatos diferentes: um flash e um JavaScript. Isso esconde a atividade maliciosa, tornando-se muito mais difícil a identificação, o bloqueio e a análise do exploit com ferramentas de engenharia reversa. Essa abordagem também torna os adversários mais eficientes e capazes de ataques mais eficazes. Por exemplo, se a primeira fase de um ataque for inteiramente em JavaScript, a segunda fase, a transmissão do payload (onde encontram-se os efeitos destrutivos do software) não ocorre até que o JavaScript tenha sido executado com sucesso. Dessa forma, apenas os usuários que executarem o arquivo malicioso receberão o payload.

5. Malvertising [malware + advertising = publicidade maliciosa] provenientes dos complementos do navegador: Os criadores de malware desenvolveram um modelo de negócio refinado, usando os complementos (add-on) do navegador da web como um meio para a distribuição de malware e aplicativos indesejados, como pop-ups, por exemplo. Os usuários pagam uma pequena taxa para baixar e instalar aplicativos como ferramentas de PDF ou players de vídeo, a partir de fontes que eles acreditam ser legítimas. Na realidade, os aplicativos estão infectados com software malicioso. Essa forma de distribuição de malware está garantindo o sucesso dos autores maliciosos, já que muitos usuários confiam inerentemente nesses add-ons ou simplesmente acreditam que sejam benignos. Os invasores ganham dinheiro com muitos usuários individuais, com pequenos incrementos persistentemente infectando seus navegadores e facilmente se escondendo em suas máquinas.

Profissionais de segurança e criminosos cibernéticos estão numa corrida para ver qual lado pode despistar o outro. Os adversários estão se tornando mais sofisticados, não só em suas abordagens de ataques, mas em burlar a detecção de formas inéditas. Mas os defensores também não estão parados. Constantemente inovando e em contínuo aprendizado sobre o que estão vendo nesta selva, os defensores serão capazes de identificar e frustrar a atual rodada de ataques.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Segurança para a Internet das Coisas

*** Artigo publicado na RTI, edição de Março de 2015 ***
Estima-se que em 2020 haverá 50 bilhões de equipamentos conectados à Internet, entre equipamentos de saúde em hospitais e residências, equipamentos industriais e de distribuição de energia elétrica, sinais de transito e tudo que fizer sentido conectar, como automóveis. Mesmo em nossas residências é questão de tempo comprar equipamentos conectados como geladeiras. É só lembrar que até pouco tempo as TVs conectadas eram ainda uma novidade cara. Em algum tempo só haverá esses modelos, da mesmo forma que ocorreu com os telefones celulares. No entanto a população estimada para esse anos é de 7.7 bilhões. Serão sete dispositivos para cada pessoa.  Não é exagero dizer que a Internet das Coisas (IoT) irá revolucionar a maneira como vivemos.
Mas e a segurança dessa estrutura massiva de dispositivos, tráfego e dados? É viável adaptar nossos modelos de segurança atuais para proteger também essa nova Internet? Ou será necessário um novo modelo de segurança? Aliás, precisaremos mesmo de tantos cuidados, ou essa discussão é um exagero? Escrever sobre a segurança da Internet das Coisas é sempre um desafio, desde meu primeiro artigo sobre o assunto em 2010, aqui mesmo na RTI. Desafio porque é algo que está sempre construído agora, e falar sobre ela é igual a escrever sobre andares de um edifício que dependem de andares inferiores que ainda nem foram planejados. Assim posso escrever hoje algo que poderá ir para o caminho oposto em questão de meses. Mas alguns aspectos já estão planejados ou razoavelmente garantidos para o futuro. Vale a pena abordá-los.
Já está claro que a base tecnológica de muitos dos novos dispositivos representará um risco em potencial. Diferentemente dos dispositivos computacionais, e ai incluo os smartphones, não serão todos que poderão ser facilmente atualizados ou executar programas de segurança. Estou falando de alguns equipamentos que serão extremamente simples, como sensores de cidades inteligentes ou em fábricas, com recursos de CPU e memoria limitados, dificultando por exemplo o uso de criptografia e autenticação.
É fato também que a Internet das Coisas do futuro não é a simples expansão da conexão de dispositivos como conhecemos hoje, majoritariamente composta de dispositivos conectados em redes fechadas, com pouca interação com outras redes e dispositivos. Quando se fala de cidades inteligentes, fala-se por exemplo de carros trocando informações com sensores públicos instalados nas ruas, sinais de trânsito capazes de reagir de maneira autônoma a eventos como a passagem de uma ambulância, e tudo mais que fizer sentido. Esse interação, seja entre rede ou sensores, também representa um risco, e a questão está sendo trabalhada no âmbito do Internet of Things World Forum (iotwf), evento global cujo primeiro encontro ocorreu em 2013 em Barcelona. O evento em 2014 premiou pesquisas em criptografia, autenticação e privacidade.
Outra área sendo trabalhada é de um novo sistema de criptografia que consuma menos recursos ao usar chaves criptográficas mais simples sem no entanto reduzir o nível de encriptação, facilitando a adoção em equipamentos simples, como os sensores de que estamos falando. Esse novo sistema atende pelo nome de Elliptic Curve Cryptography (ECC).
Outro imenso desafio é a capacidade de analisar os imensos volumes de dados transmitidos na rede em busca de anomalias ou tráfego suspeito.  A resposta pode estar no Real-Time Analytics, o conjunto de tecnologias que permite a análise em tempo real de quantidades massivas de dados. Para as redes que suportarão o futuro da Internet das Coisas é esperado que essa capacidade esteja inserida nos próprios equipamentos de rede, que poderão assim detectar e responder a eventos ou anomalias antes mesmo que os operadores atuem com ações corretivas. Hoje já é possível que a própria rede atue como um grande sensor de segurança, obtendo dados em tempo real que são analisados por sistemas de análise comportamental e de detecção de anomalias.
Outra questão é a da segurança física. Muitos dos sensores inteligentes estará nas ruas e em locais públicos, assim como já ocorre hoje com os equipamentos dos hotspots. É de se esperar que os administradores não irão desejar que alguém tenha acesso físico a eles. Mas é possível que isso ocorra e por isso mecanismos tem que ser criados para evitar que alguém insira fisicamente dados falsificados, ou comprometa os dados captados por sensores inteligentes.
Por fim a privacidade. No fundo boa parte desses dispositivos e sensores estarão associados a pessoas, seja um sensor médico ou nosso celular ou carro, revelando onde estamos e para onde fomos anteriormente. A relação de privacidade não envolve apenas leis e regulações, pois as organizações que armazenam esses dados precisam garantir sua inviolabilidade, na aquisição, transporte, processamento e armazenagem. Não é muito diferente do que já ocorre em nossa vida digital, mas dessa vez com nossa vida real. Um bom exemplo do tamanho do desafio é o que já é feito hoje com os smartphones e os aplicativos de geolocalização. Nossos telefones hoje agem como sensores enviando informações a uma grande base de dados em nuvem. Está lá onde pesquisamos com o aplicativo de mapas e para onde ele nos guiou, onde estamos e onde estivemos, páginas acessadas e compras realizadas a partir daquele celular e muito mais. Até as fotos que usamos podem ser automaticamente enviadas à nuvem para ficar a disposição de amigos e ás vezes desconhecidos, amigos dos amigos dos amigos. Nos metadados dessas fotos estão também o local, dia e hora.

É fácil notar que ao falar de IoT fala-se bastante da nuvem. Sim, a IoT está e estará muito conectada à computação em nuvem. Esse volume extraordinário de dados necessita ser processado em sistemas altamente escaláveis, sem as amarras existente nos modelos atuais. Mas mesmo a própria rede será diferente do que conhecemos hoje. Os cérebros e empresas que estão construindo essa nova rede estão investindo em novos protocolos. A transição por certo será lenta, e na verdade já começou, mas Internet definitivamente não será como a conhecemos hoje.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O Mercado da Insegurança

*** artigo publicado na revista RTI edição de Agosto 2014 ***

Quando ouvimos que a rede Americana Target foi invadida e 40 milhões de cartões de pagamento roubados, ou que uma nova fraude para desviar pagamentos de boletos foi descoberta, com potencial de perdas de até 4 bilhões de dólares, estamos tratando de números e valores extremamente elevados porém bastante incertos. Estão corretos? Qual seria então o montante? Qual o tamanho do mercado negro do crime cibernético? Como ele é formado e estruturado? Conhecer e estimar seu tamanho é mais do que simples curiosidade, pois sabemos que os ganhos financeiros são o maior motivador dos grupos criminosos. Assim conhecer melhor esse motivador nos ajuda a entender melhor nossos inimigos e seu potencial. Há anos empresas e institutos especializados em segurança tentam quantificar os prejuízos, mas infelizmente os diversos relatórios apontam valores bem diferentes, e não apenas por questões de metodologia, trazendo ainda mais dúvida.
Um estudo da RAND Corporation publicado em Março desse ano - Markets for Cybercrime Tools and Stolen Data (Mercado para as ferramentas de crime cibernético e dados roubados) tenta por um pouco de ordem na discussão. Não tive o tempo ou mesmo os recursos para validá-lo, mas o relatório está muito bem organizado. Outro artigo bem interessante foi publicado no site da ZDNet com o título de Hackonomics: Cybercrime's cost to business (Hackonomics: o custo do crime cibernético para os negócios).  No artigo a autora comenta e analisa os valores conflitantes de vários relatórios, como o de 2009 do Center for Strategic and International Studies, o qual cita prejuízos globais de 1 trilhão de dólares, mais tarde contestado por relatório do mesmo instituto, publicado em 2013, com valores que chegam até 400 milhões de dólares. Uma diferença significativa!
Como o estudo alerta, o uso da palavra “mercado” não é apenas por figura de linguagem. No seu inicio até meados da década passada a atividade hacker era simbolizada por um individuo jovem sentado em sua casa enquanto invadia sistemas pelo mundo. Esse modelo evoluiu para o que vemos hoje: grupos organizados no desenvolvimento e comercialização de ferramentas de invasão atuando como suporte a quadrilhas com funções definidas, um mercado negro estruturado na comercialização de kits de invasão e ferramentas, investimento constante em inovação e orçamentos superiores ao de muitas empresas em segurança de TI. É que se pode chamar de profissionalização da atividade. Esse mercado negro de produtos possui ainda características muito similares ao mercado legal de informática. Programas vendidos com planos de manutenção e suporte técnico, versões, soluções completas com funções disponíveis em nuvem, entre outros. Ainda de acordo com o relatório, 80% dos seus participantes fazem parte de algum grupo enquanto os 20% restantes são indivíduos, freelancers, como chamados no estudo.
A análise dos preços e modalidades de venda mostra o potencial desse mercado. É comum para leigos pensar que os hackers ainda invadem sites para usar o cartão de crédito de terceiros em beneficio próprio, porém as opções de faturamento também se multiplicaram. Há grupos que se especializaram em apenas vender ferramentas de ataque (exploits) e vulnerabilidades dia-zero, essas as mais valorizadas, com preços que ultrapassam os duzentos mil dólares, variando de acordo com plataformas afetadas e claro o impacto potencial. Outros se especializaram com o front, ou seja, executam a invasão visando o roubo de dados e posterior venda. Essa sofisticação do mercado é comprovada pela variedade de produtos e serviços vendidos, além dos kits de invasão, exploits ou vulnerabilidades dia-zero. Tomemos por exemplo alguém que queira realizar um ataque DDoS e precise alugar computadores zumbis de uma botnet. Esse serviço está disponível. Ou então um novato que conseguiu roubar determinada quantidade de cartões de crédito e quer vende-los. Há marketplaces especializados oferecendo também a lavagem do dinheiro. Tudo, claro, virtual. Não é a toa que essa é uma das atividades ilegais que mais cresce no mundo. Um dado impressionante no relatório da RAND é a taxa de inovação, ou seja, de lançamento de novos produtos, ou kits de invasão.  Em 2006 foi identificado apenas um kit de completo de invasão lançado, numero que aumentou para 33 em 2013, além de 44 atualizações de kits lançados nos anos anteriores.
Mas há ainda outros fatores que impulsionam esse crescimento. Há pelo menos duas décadas os negócios estão migrando continuamente para o mundo digital, usando ou não a Internet. O crime ao migrar está apenas seguindo o dinheiro, em uma atividade com muito mais vantagens que a do “mundo real”. Primeiro não há fronteiras, o que significa que uma quadrilha pode atuar em qualquer país do globo, não importando onde está baseada. Segundo, os riscos físicos são infinitamente menores. Ninguém levará um tiro pela Internet. Terceiro, o alcance é incomparável. Quantas pessoas um criminoso comum pode roubar em um dia? Por mais que roube um restaurante cheio não irá se equiparar a alguém que infiltrou um código malicioso em uma página web acessada por milhões de pessoas, e que certamente irá funcionar para alguns milhares. Outro fator é a maior facilidade e menor risco para ingressar nesse ramo de atividade ilegal. É sabido que grupos vendem kits completos de invasão via plataformas de comercio eletrônico, utilizando alguma forma de dinheiro virtual para pagamento, em um modelo não muito diferente de e-commerce que estamos acostumados.
Os pesquisadores chegaram a conclusão que o crime cibernético pode ser mais lucrativo que o das drogas ilegais.  É possível. A produção e o tráfico de drogas requerem uma estrutura física impressionante enquanto no mundo virtual tudo é mais simples. Mesmo que esses tipos de pesquisa não sejam conclusivos é importante para todos compreender mais com quem estamos lidando. Em segurança da informação há muita novidade disputando nossa atenção e é fácil perder o foco. É essencial voltar sempre a ele.

= atualização 06/04/2015 =
Na lista abaixo podemos ter alguma ideia de quanto se ganha por “produto”, em dólares americanos. A lista foi preparada pela RSA em parceria com o portal CBNC:
• Número de Seguro Social (seria o CPF em nosso caso): $1
• DDoS como serviço: ~$7/hora
• Registro médido: >$50
• Dados de cartão de crédito: $0,25 a $60
• Dados de contas bancarias: >$1000 dependendo do tipo e saldo da conta
• Malware para dispositivos móveis: $150
• Spam: $50 por 500 mil e-mails
• Desenvolvimento de Malware para venda: $2500
• Exploits: de $1000 a $300 mil
• Conta no Facebook: $1 para uma conta com 15 amigos